O caso brasileiro
Há ainda uma dimensão dessa discussão que, no Brasil, dificilmente pode ser ignorada.
Não pretendo resolver aqui uma questão histórica dessa dimensão, nem estabelecer uma linha causal simples entre o passado e as relações de serviço que encontramos hoje. Mas é difícil pensar o lugar social do servir no Brasil sem olhar para a maneira como determinadas formas de trabalho foram historicamente distribuídas e percebidas.
Durante séculos, tarefas ligadas ao cuidado, ao serviço doméstico, à alimentação, ao transporte, ao asseio e à assistência pessoal estiveram profundamente atravessadas pela escravidão, pela dependência e por hierarquias sociais. A abolição jurídica da escravidão evidentemente não reorganizou de uma só vez a estrutura social, o valor atribuído às ocupações nem as relações entre aqueles que serviam e aqueles que eram servidos. Classe, raça, trabalho doméstico e diferentes formas de dependência continuaram atravessando muitas dessas atividades.
Não me parece necessário afirmar que essa história explica, sozinha, nossa relação contemporânea com o servir; mas também seria estranho imaginar que séculos de associação entre determinados trabalhos, subordinação e posição social não tenham deixado marcas na maneira como reconhecemos essas funções.
Há ainda uma contradição possível nessa história. Uma sociedade pode depender profundamente de determinados trabalhos sem atribuir a eles o mesmo valor social que atribui àquilo de que depende. Cuidado, limpeza, alimentação, atendimento, transporte e Hospitalidade podem ser indispensáveis à vida coletiva e, ainda assim, permanecer associados a posições de menor prestígio. Talvez parte da dificuldade brasileira em pensar o servir esteja também aí: na distância entre a importância que atribuímos ao serviço e o lugar social que atribuímos a quem serve.
